21/09/2019 às 13h05min - Atualizada em 21/09/2019 às 13h05min

Restaurador do tempo

Nascido em Palmeiral, Neinha aprendeu a olhar as horas no velho relógio de parede do avô, e mais tarde, pela força do destino, iria ser ele um renomado restaurador deste objeto

Pedro Cunha
Pedro Cunha

O tempo passa e o balanço das horas nos persegue, ele vai e vem. Sem percebermos, somos submissos ao singelo desconforto do “tic e tac”. Vamos nos apegando a diversas formas de acordar. Convivemos com os velhos relógios de parede, com os “cucos” da sala dos avôs, com os infalíveis cocoricós galináceos matinais, e porque não, dos atuais, precisos e indiscretos despertar dos relógios digitais.

Isto é o tempo, com suas inúmeras formas de marcar e perpetuar umas das mais antigas profissões do mundo, a do relojoeiro. E foi assim que Enéas Donizetti dos Santos, o Neinha, nascido em Palmeiral, aprendeu a olhar as horas no velho relógio de parede do avô, e que mais tarde, pela força do destino, iria fazer dele um renomado restaurador deste objeto, considerado por ele e por muitos, como uma jóia atemporal.

No final da década de 70, já casado com sua fiel companheira de profissão, Leonor Piva dos Santos, Neinha decidiu, primeiramente, se torna fotógrafo, abrindo um estúdio fotográfico no distrito de Palmeiral, o “Foto Enéas”. Com o passar do tempo, a oportunidade de expandir seus negócios apareceu quando começou a levar relógios de clientes para conserto, na relojoaria do Elias, amigo que trabalhava no prédio da antiga rodoviária de Poços de Caldas. Incentivado por ele e com a aquisição de algumas ferramentas, Neinha começou a dedicar-se à nova profissão, relojoeiro, segundo ele, consertando e estragando muitos deles.

Neinha diz que chegou uma hora em que foi convidado a trabalhar com o velho e saudoso amigo fotógrafo, José Balilla Gianelli, em Botelhos, onde trabalhava ainda como fotógrafo, mas não abandonando o gosto pela relojoaria. O tempo passou e Neinha acabou voltando para Palmeiral, mas por pouco tempo. Após quase dois anos, já no início de 1980, ele finalmente criou raízes e fixou-se, e até hoje, como relojoeiro restaurador proprietário da “Relojoaria A Central”, no centro de Botelhos.

No balanço das horas, quando ainda trabalhava com apenas com relógios de pulso, foi incentivado por outro amigo, Edson Alves Ferreira, proprietário da Relojoaria Kelly, em Poços de Caldas, começou a consertar as máquinas de relógios de parede. Porém, como os marcadores de um relógio, uma nova hora se mostrou quando um catador de entulhos lhe ofereceu uma estragada caixa de relógio de parede, que foi descartada no lixo. Não tendo mais tempo para aguardar a restauração das caixas, feitas pelo marceneiro profissional, Sr. João da Carolina, resolveu a partir daquele momento, ele mesmo restaurar e construir suas próprias caixas de relógio. Ganhando gosto e amor pela nova empreitada, montou uma pequena marcenaria em casa, onde, entre erros e acertos, foi ajustando seu trabalho, tornando-se conhecido na região como um excelente restaurador de relógios de parede.

Neinha conta que recebe trabalho do Brasil todo, dando exclusividade à madeira vinda da arvore conhecida como Imbuia, originaria da região sul do Brasil, que além de forte resistência ao tempo, é fácil de trabalhar e de grande valor comercial. Juntando o útil ao agradável, Neinha tornou-se especialista na arte da restauração, confeccionando peças exclusivas em

madeira, reparos em engrenagens de máquinas de relógios, cujas peças são quase todas importadas dos Estados Unidos.

Para finalizar, Neinha explica que, mesmo com o advento da era digital, a profissão de restaurador e relojoeiro ainda é muita valorizada e não senti a mudança do tempo. “As pessoas ainda veem o relógio como uma jóia, como algo distinto e de bom gosto”. Segundo ele, a profissão requer atenção, paciência e muita dedicação, pois relógios são máquinas com dezenas de pequenas engrenagens que têm a função de controlar o tempo da vida humana.


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